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	<title>O Anormal - A Stranger Paradise</title>
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	<title>O Anormal - A Stranger Paradise</title>
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		<title>Antes morto que mal vivo</title>
		<link>https://astrangerparadise.com/antes-morto-que-mal-vivo</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bórgia Ginz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Apr 2021 17:00:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[O Anormal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Antes morto que mal vivo. O tempo é apenas o resíduo da nossa memória mais violenta, evolui segundo a expectativa que dela nasce, e assim morre, quando o desencanto surge no limiar da porta. Os olhos todos do abismo estão presentes nesse belo momento. O microsegundo eterno do adeus.<br />
As sombras que eu deposito no passeio que me acolhe estão gastas demais para daí retirar qualquer conveniência. Eu próprio me afundei na constatação do final urgente, da misericórdia sem meios capazes, no azul dos olhos que são castanhos. Não importa se o final tem mesmo um fim, ou se é apenas mais um adiar constante e firme sem ser convincente, ou se a mente apenas procria as imensidões sem as poder antever no corpo. O caso não é para agonias nem pesares. Tudo pode ser corrigido. Um gesto. Um olhar.</p>
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<p>Antes morto que mal vivo. O tempo é apenas o resíduo da nossa memória mais violenta, evolui segundo a expectativa que dela nasce, e assim morre, quando o desencanto surge no limiar da porta. Os olhos todos do abismo estão presentes nesse belo momento. O microsegundo eterno do adeus.<br />
As sombras que eu deposito no passeio que me acolhe estão gastas demais para daí retirar qualquer conveniência. Eu próprio me afundei na constatação do final urgente, da misericórdia sem meios capazes, no azul dos olhos que são castanhos. Não importa se o final tem mesmo um fim, ou se é apenas mais um adiar constante e firme sem ser convincente, ou se a mente apenas procria as imensidões sem as poder antever no corpo. O caso não é para agonias nem pesares. Tudo pode ser corrigido. Um gesto. Um olhar. O corpo todo pode-se transformar na libélula em que a mente se vai metamorfoseando. As mãos podem ser os instrumentos lógicos do nosso querer, e assim, no meio da virtude, pode bem surgir um medo maior do que todas as belezas juntas, um medo que nos fascine ao ponto de o querermos sempre bem entalado no âmago do nosso ser, um medo que nos faça procriar. Não há dúvida que a procriação é bem a nossa urgência.<br />
Hoje, veio de través uma resposta às minhas maravilhas. O tempo. Ou a falta que o tempo faz. A necessidade de haver um tempo, uma cronologia acertada para tudo, um acerto geométrico da nossa progressão pelo mundo, é vazia e nada diz, é apenas mais uma escolha, um leve encolher de ombros com um tímido sim a empoleirá-lo. Queremos pura e simplesmente ser cronologicamente correctos.</p>
<p>Bórgia Ginz, <em>in O Anormal</em></p>
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		<title>Merda para o tempo</title>
		<link>https://astrangerparadise.com/merda-para-o-tempo</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bórgia Ginz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Apr 2021 17:27:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[O Anormal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Merda para o tempo... Não sei o que fazer: sentar-me ou quedar-me deitado, a ouvir o vento a bater na vidraça. O dia está-me no sangue como se tratasse de poeira, não o sinto, excluído está de tão fútil ser. Mas está-me no sangue. E por isso mesmo fico alheado e exaltado ao mesmo tempo, pois que tudo me ameaça cair em cima dos ombros já bem pesados. Tenho vontade de correr os cem metros! Mas as forças abandonam-me já, estando ainda o desejo tão próximo. O desejo...  Tudo o que nós ambicionamos com o punho viscoso do nosso querer, tudo o que se afasta enquanto nos aproximamos demais. É o excesso que nos deixa alheados.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="qt-vc-row-container"><div class="vc_row wpb_row vc_row-kentha"><div class="wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12"><div class="vc_column-inner"><div class="wpb_wrapper">
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<p>Merda para o tempo&#8230; Não sei o que fazer: sentar-me ou quedar-me deitado, a ouvir o vento a bater na vidraça. O dia está-me no sangue como se tratasse de poeira, não o sinto, excluído está de tão fútil ser. Mas está-me no sangue. E por isso mesmo fico alheado e exaltado ao mesmo tempo, pois que tudo me ameaça cair em cima dos ombros já bem pesados. Tenho vontade de correr os cem metros! Mas as forças abandonam-me já, estando ainda o desejo tão próximo. O desejo&#8230; Tudo o que nós ambicionamos com o punho viscoso do nosso querer, tudo o que se afasta enquanto nos aproximamos demais. É o excesso que nos deixa alheados.<br />
A noite aproxima-se com os seus passos de vagar sonolento. E é mesmo isso que me angustia, que me provoca náusea. Em ondas que me deixam velho e usado. A velhice da alma é bem mais precoce do que a velhice do corpo! Porque o corpo é exactamente aquilo que lhe damos como uso, nada mais do que isso. Enquanto a alma, é sempre um estranho bem dentro do nosso ser, com vida própria que não nos pertence, que até nos afronta da maneira mais impertinente. É uma velha debochada a nossa alma!<br />
E é isso mesmo que me angustia. A noite aproximar-se sem eu estar preparado para ela. Porque a chegada da noite é sempre o sinal da falta de tempo, da falta de mim. Eu vivo em desvio constante. Nada me fascina já, nada me faz rir um pouco, nada em nada me consome: porque eu já fui todo consumido! (Não chorem, não chorem, por favor&#8230; É tudo a brincar.)<br />
Desprezo e desprezo-me. É como se tratasse de um jogo: vamos ver quem despreza mais?<br />
Bolas para tudo. Tenho sono. Um sono profundo e maldoso. Mas é tudo a fingir. A mim apetecia-me era correr os cem metros! Correr a vida&#8230; e esperar pela Morte!</p>
<p>Bórgia Ginz, <em>in O Anormal</em></p>
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		<title>Café</title>
		<link>https://astrangerparadise.com/cafe</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bórgia Ginz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Apr 2021 17:21:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[O Anormal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No salão do café só estão agora alguns casais de idosos. Parece-me estar na fronteira de dois mundos que não coexistem de uma forma harmoniosa. Do lado de fora do café vagueiam os seres apressados, de objectivos bem definidos e ansiosos. Os jovens. No lado de dentro permanecem os idosos, cuja vida passou em frente a seus olhos sem deixar as marcas de uma missão. Eu estou bem encostado à montra, com uma janela enorme, com os olhos postos nas pessoas que passam lá fora, mas com a alma bem dentro da escuridão do salão. Sinto-me, (que absurdo eu sentir-me assim), o fiel da balança que nunca se equilibra, pois o peso morto da velhice é bem mais leve que todas as vidas que ainda viverão até ao futuro.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="qt-vc-row-container"><div class="vc_row wpb_row vc_row-kentha"><div class="wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12"><div class="vc_column-inner"><div class="wpb_wrapper">
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<p>No salão do café só estão agora alguns casais de idosos. Parece-me estar na fronteira de dois mundos que não coexistem de uma forma harmoniosa. Do lado de fora do café vagueiam os seres apressados, de objectivos bem definidos e ansiosos. Os jovens. No lado de dentro permanecem os idosos, cuja vida passou em frente a seus olhos sem deixar as marcas de uma missão. Eu estou bem encostado à montra, com uma janela enorme, com os olhos postos nas pessoas que passam lá fora, mas com a alma bem dentro da escuridão do salão. Sinto-me, (que absurdo eu sentir-me assim), o fiel da balança que nunca se equilibra, pois o peso morto da velhice é bem mais leve que todas as vidas que ainda viverão até ao futuro.</p>
<p>O ventre daquela mulher que tanto me agradou é saliente, o rabo torneado, as pernas finas talvez demais. O curioso é que o seu olhar vê-me como se eu falasse para ela, encostada ao balcão, talvez ali ao fundo onde não está ninguém. Mas nunca lhe disse coisa alguma.</p>
<p>O comprido dos cabelos chega ao fundo das costas magras e de ombros levemente inclinados para trás; traço lógico e singular de uma certa categoria de mulheres que teimam em não exprimir a sua beleza de uma forma mais viril. O que é certo é que poderia muito bem falar com ela, segurar-lhe a mão e encaminhá-la para a saída do bar, onde, no frio e escuridão da noite lhe faria um belo poema, mesmo ali, de improviso. O mais certo é que nunca cometerei tal proeza; o heroísmo anda arredado de mim de algum tempo a esta parte. O belo da questão é que o seu andar torto e a jovialidade aparente do seu sorriso deixam antever belas noites, longas e longas, cheias de apaixonadas conversas e abraços inocentes. É curioso.</p>
<p>Na semana passada decidi que iria viver plenamente e convictamente em castidade. Naquele dia da semana passada a ideia surgiu-me bela e bonita, linda e maravilhosa, e dei comigo a pensar que a partir daquele dia da semana passada é que as coisas enfim se tornariam belas e bonitas, lindas e maravilhosas. Não mais viver em função de baixos expedientes para conseguir um toque fortuito na suavidade de uma mulher; ou um beijo rápido e pouco apaixonado quanto rápido, ou outra coisa qualquer que me desse a ilusão de um prazer de um tamanho maior do que o mundo: essa terna ideia de acalmia e inocência enchia-me a cabeça de belos projectos e dava-me a provar o belo aroma da felicidade. Nunca chegaria a saber como seria isso tudo. Naquele dia da semana passada fazia muito calor, era de tarde, e o sol estava particularmente esfuziante. Saí do café onde tinha cogitado todas aquelas belas ideias, atravessei a passadeira para o outro lado da rua, aquela mulher estava à minha frente, esperava que os carros parassem, tinha uma saia tão bonita, uma pele de arrepiar, os ombros direitos, a saia não protegia o necessário, as pernas sem mácula, se eu lhe visse a cara então é que era, e assim por diante&#8230;</p>
<p>É verdade, toda a gente quer ser especial. Mas se toda a gente fosse especial, toda a gente quereria ser tudo menos especial. As virtudes, quando são em demasia até chateiam, são como os vermes que vão roendo, roendo, muito lentamente, sem que a gente se aperceba da sua presença imponente. Por exemplo:</p>
<p>Aquela mulher perdera o amor que outrora sentira por mim. Não podia de qualquer modo negar tal facto; mesmo que a compreensão das coisas surgisse lenta e triste, bem amortalhada pelo peso da memória. Por outro lado a amizade era algo que não me interessava. Bem podia eu gritar isso a plenos pulmões que menos nisso acreditaria. O facto é que a virtude começava a queimá-la, ou melhor, a picá-la, assim como que a dizer-lhe: “Vês? Vês?” Mas mesmo assim ela nunca via nada. Apenas pressentia a fuga como tábua de salvação e ei-la, toda ocupada a equilibrar-se naquele pequeno pedaço de madeira enquanto bate os braços tão nervosamente naquela água tão suja.</p>
<p>O equilíbrio. Eis uma coisa que é daquelas mesmo fundamentais. “O equilíbrio da mente aliado ao equilíbrio do corpo dá saúde e faz crescer”. Tudo muito certo. Mas o equilíbrio que realmente importa é um equilíbrio desse tipo sim, mas dos outros. O equilíbrio dos outros. Os outros, esses é que fazem a nossa vida, os nossos desejos, as nossas desmedidas ambições. E dentro desses outros equilibrados eu tinha perdido o lugar. Pelo menos ela julgava assim.</p>
<p>Eu sei que a morte poderia bem ser a melhor justificação para tudo. Mas o menos nunca é suficiente. E o menos mais menos que a morte me proporcionaria é bestialmente insuficiente. Não chega ter as dores que tenho, para proclamar em hasta pública que sou um miserável, que padeço da doença do suicidiário agudo. Não. As honras da minha vida não pertencem a ninguém. É como uma casa que vai a leilão, com muitos e bons potenciais compradores, mas que tem defeitos, uma racha na parede, a lareira que não funciona bem, e assim vai ficando sem um único rematador.</p>
<p>Mas aquela mulher que tanto me agradou, aquela do ventre saliente, é bem mais súbtil que qualquer pensamento mais destrutivo da minha parte. Ela na verdade não significa nada. É apenas mais uma, apanhada na corrente da minha existência só, que pomposo!, é apenas uma mulher. E aí está! É isso que ela tem de mais encantador. O olhar é normal, o andar, embora torto, é normal, o corpo é normal, os cabelos são normais, tudo correcto. Só que essa normalidade toda junta, toda aconchegada, contribui para que se forme um quadro onde se representa a beleza!</p>
<p>Não, não me sinto nada fascinado por essa mulher. Foi apenas uma que da primeira vez não desviou o olhar quando fixei nele o meu. Uma mulher que esperou um breve microsegundo para tentar ver algo para além do apresentável. Mais nada. Há tantas mulheres que olham!</p>
<p>Bórgia Ginz, <em>in O Anormal</em></p>
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		<title>Memória</title>
		<link>https://astrangerparadise.com/memoria</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bórgia Ginz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Apr 2021 17:02:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[O Anormal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A memória perdura na minha mente. Ainda... Faltam os acasos todos subtis, para que o assombro do sentir se volte para mim e me faça vibrar no escuro do meu quarto escuro.</p>
<p>Como todas as coisas que se fazem amenamente, o vicio já não tem a sua conta de maravilha, ele eclipsou-se para sempre em vagas de sonho inconcreto, velho, menos amoroso do que a rocha mais dura e inviolada. É a miséria a vibrar os seus golpes cruéis e certeiros.</p>
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<p>A memória perdura na minha mente. Ainda&#8230; Faltam os acasos todos subtis, para que o assombro do sentir se volte para mim e me faça vibrar no escuro do meu quarto escuro.</p>
<p>Como todas as coisas que se fazem amenamente, o vicio já não tem a sua conta de maravilha, ele eclipsou-se para sempre em vagas de sonho inconcreto, velho, menos amoroso do que a rocha mais dura e inviolada. É a miséria a vibrar os seus golpes cruéis e certeiros.</p>
<p>Sinto os braços como se eles cumprissem os onze trabalhos de Jasão. Cansados e frouxos, num misto de dor e fadiga, que é sem dúvida aliada da inacção da mente. A cerveja que há muito deixou de percorrer o seu meu corpo faz aparecer as suas marcas; ou a falta das suas marcas. O meu cansaço físico é bem físico! Já não é apenas a mente a gritar pelo descanso. O nervosismo dos membros assanhados assemelha-se à senilidade do corpo de um velho, oxigenado, ou com falta de oxigénio, que é rigorosamente o mesmo, porque vai dar invariavelmente à morte.</p>
<p>Tenho todo o tempo do meu tempo para retomar a minha vida, com os braços cheios de pedidos e de ansiedades. Eu necessito de paixão. Mas, de uma paixão que tenha a pureza de uma primavera, de um renascer de corpo, e de alma. A dor física e psicológica que sinto é de uma atrocidade enorme, desencorajante, mas tenho que perceber que só assim poderei encontrar uma qualquer paz de espírito. Devo apoiar-me no tempo, e procurar em mim o alimento de que necessito. Quero de novo sentir o vento a revolver-me os cabelos. Necessito de uma pequena fúria. Vou escrever para as gerações vindouras. Mas não tenho a sinceridade suficiente para falar das coisas como elas aconteceram realmente. Se as pessoas conhecessem os pequenos pormenores da minha vida. Mas eu já vou pensando na realidade como uma realidade literária, já faço a selecção até das pessoas que são, ou não são, literárias. Agora que vivo só, mais uma vez, vou deixar que os meus personagens vivam por mim. Vou criar pedaços de eu mesmo que vão vaguear por aí, no meio das coisas mais fantásticas e extravagantes. Depois, encontrá-os-ei por aí e aí me dirão todas as peripécias que testemunharam. Lembro agora que tenho ainda certos personagens presos no esquecimento, a quem falta apenas libertar para me felicitarem e depois abrir a voz.</p>
<p>Passei a manhã toda e parte da tarde na cama. Quis-me perder, afundar-me nela, mas ela invariavelmente repeliu o meu corpo para a sua superfície. É uma questão de persistência. Um dia destes conseguirei.</p>
<p>Acabou de se sentar, de perfil para mim, uma certa rapariga que recordo conhecer de algum lado. Está só, tal como eu sou só. Apoiou a cabeça de longos cabelos escuros no par de mãos cruzadas, em forma de prece. Não consigo recordar de onde a conheço, mas tenho no entanto a certeza que já vivi uma apaixonada estória de amor com ela. Ela ficou a olhar pela porta fora, observando, coisa que eu fizera até ela entrar, as pessoas que passam lá fora, debaixo do Sol que parece furioso. Ela não tem um sorriso bonito, mas que importância tem isso agora. De bom grado me abandonaria agora nos seus braços de mãos de unhas compridas. Ela foi-se embora. Adeus&#8230;</p>
<p>Bórgia Ginz, <em>in O Anormal</em></p>
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		<item>
		<title>O encontro</title>
		<link>https://astrangerparadise.com/o-encontro</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bórgia Ginz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Apr 2021 16:46:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[O Anormal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Eu tinha chegado há pouco àquela cidade, devido à necessidade de conseguir trabalho, isto depois de uma breve passagem pelas salas escuras e anónimas de uma pequena instituição de ensino superior do interior, quando conheci S. e aquele grupo heterogéneo de amigos no meio do qual eu agora me passeava. Eu era de qualquer forma um estranho, um out-sider naquela cidade, eu, que conhecia o mundo através dos livros que lia, vivendo até então uma vida ascética e inóqua de prazeres modernos. De maneira que toda aquela grandiosidade das formas exercia uma espécie de fascínio sobre mim, apesar de nos primeiros tempos a dificuldade em me adaptar fosse quase penosa e me fizesse ter vontade de fugir, de escapar das pessoas e dos seus tentáculos de amizade. Até que conheci S., durante um episódio assaz singular.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="qt-vc-row-container"><div class="vc_row wpb_row vc_row-kentha"><div class="wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12"><div class="vc_column-inner"><div class="wpb_wrapper">
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<p>Eu tinha chegado há pouco àquela cidade, devido à necessidade de conseguir trabalho, isto depois de uma breve passagem pelas salas escuras e anónimas de uma pequena instituição de ensino superior do interior, quando conheci S. e aquele grupo heterogéneo de amigos no meio do qual eu agora me passeava. Eu era de qualquer forma um estranho, um out-sider naquela cidade, eu, que conhecia o mundo através dos livros que lia, vivendo até então uma vida ascética e inóqua de prazeres modernos. De maneira que toda aquela grandiosidade das formas exercia uma espécie de fascínio sobre mim, apesar de nos primeiros tempos a dificuldade em me adaptar fosse quase penosa e me fizesse ter vontade de fugir, de escapar das pessoas e dos seus tentáculos de amizade. Até que conheci S., durante um episódio assaz singular.<br />
Foi quando entrei pela primeira vez num daqueles locais de dança que pululam um pouco por todo o lado. Estava sozinho. Obviamente sentia-me um tanto deslocado, no meio de toda aquela gente que se contorcia alegremente enquanto dançava, que bebia e fumava de uma forma maravilhosa, sentindo-me eu um ponto negro miudinho numa imensa tela branca. Na ânsia de me sentir um pouco melhor entreguei-me desde logo à bebida, mandando vir sucessivamente uns licores e uns copos de rum, de maneira que após algum tempo estava já ligeiramente embriagado, sentindo os vapores tépidos do álcool assomarem-me à cabeça. Foi então que a vi, a um canto, conversando com uns tipos. Nada nela me chamou especial atenção, mas no entanto não pude deixar de fixar o meu olhar já meio desfocado na sua figura, e com tal insistência que acabei por sentir uma leve dor de cabeça. Pensei que seria melhor parar de beber e ir-me embora. A música tornara-se insuportável e a cabeça andava-me já à volta como se de um peão se tratasse. Preparava-me para levantar e vestir o sobretudo, quando ouvi uma voz muito suave atrás dele:<br />
-Gostas de mim?<br />
Virei-me e dei de caras com S. que pelos vistos acabara a conversa e se encontrava agora ali à minha frente. Notei que já estava seguramente um pouco bebida; a sua face estava anormalmente rosada e o olhar parecia bastante turvo.<br />
-Eu vi-te a olhar para mim. É que se gostares de mim eu passo a gostar de ti, também.<br />
Fiquei um pouco surpreendido com as suas palavras, achei-as muito estranhas mesmo, quis-lhe responder qualquer coisa com nexo mas, aos tropelões, disse apenas qualquer coisa como isto:<br />
-O gosto é extensivo à beleza. Se me provares que és bela, então aí, eu gostarei de ti.<br />
Ela riu-se. De uma forma muito solta, a resposta agradara-lhe. Convidou-me. a tomar um último copo ao que, após alguma hesitação, acedi.<br />
O salão encontrava-se agora bem mais vazio, a hora tardia e o cansaço afastava lentamente os casais e toda a gente dali para fora, de maneira que apenas eu e S. ainda bebiamos sentados. Um copo meio de whisky balançava suavemente nas suas mãos brancas e esguias.<br />
-Tu não és daqui, pois não?- perguntou, enquanto acendia um cigarro.<br />
Respondi que não, que estava na cidade há pouco tempo, que trabalhava num escritório piolhoso de uma ruela esquecida, e que por enquanto não conhecia ali ninguém.<br />
-Na ternura do desconhecido reside o encanto de uma vida&#8230; &#8211; respondeu ela no meio de um sorriso límpido mas transtornado pela bebida. Deixa lá que daqui a pouco tempo isso acaba. Acaba-se toda a piada. Deixa-se de sentir o delicioso charme que o não conhecer nada nem ninguém nos põe no andar.<br />
Não pude deixar de sorrir.<br />
-Achas isso mesmo?- perguntei.<br />
-Claro, vais ver que depois só conheces gente e acha-los todos chatos e inoportunos. De resto&#8230; és agora um desconhecido que provavelmente se tornará um conhecido e um chato, como os outros.<br />
Olhava para ela, a tentar descortinar uma qualquer ponta de ironia, mas não, parecia muito segura e a falar com seriedade. Tentei dizer-lhe que de modo algum concordava com ela, mas saiu-me exactamente o contrário, uma frase neutra.<br />
-As pessoas têm uma necessidade vital de convívio. A natureza&#8230;<br />
-A natureza quer que nos amemos&#8230; temos isso no sangue. Mas eu não consigo amar uma pessoa que conheço há séculos e no entanto continua ininteligível para mim, quer dizer, que conheço bem demais para a não detestar. Daí ser preferível apenas conhecer desconhecidos, viver num eterno desconhecimento flutuante.<br />
E riu-se, movendo apenas a sua cabeça, suavemente, como se tratasse antes de um leve pranto que fosse imperceptível a mim e aos empregados que se preparavam para levantar as mesas.<br />
-Posso presumir então que não te verei mais &#8211; repliquei.<br />
-Não. Ainda não te conheço, ainda não te detesto. Vamos&#8230;<br />
E levantámo-nos.</p>
<p style="text-align: center;">*</p>
<p>Nessa noite havia muita humidade no ar. O chão encontrava-se molhado e brilhante, assemelhando-se a uma espécie de espelho onde se reflectiam as luzes periclitantes e artificiais dos reclamos de néon das lojas comercias. Caminhavamos em silêncio. S., de cabeça baixa e cabelo esvoaçante parecia meditar profundamente. Eu ia de mãos nos bolsos, observando as irregularidades do passeio. A dada altura ela levantou os olhos.</p>
<p>-Eu moro aqui. Aparece cá amanhã, à hora do jantar. Temos festa&#8230;</p>
<p>Bórgia Ginz, <em>in O Anormal</em></p>
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		<title>Diferente</title>
		<link>https://astrangerparadise.com/diferente</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bórgia Ginz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Apr 2021 17:25:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[O Anormal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p><em>-Eu sou diferente de todos os homens que poderás encontrar.<br />
-Todos os homens são diferentes...<br />
-Mas eu sou diferente até naquilo que os outros são iguais.<br />
-Podias concretizar?<br />
-Tu, por exemplo. Amo-te, julgo sabê-lo. E assim, nunca te conseguirei deixar. Faltar-me-ão sempre as forças para dar o último passo.<br />
-Eu sei. É por isso que te acho um fraco.<br />
</em></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="qt-vc-row-container"><div class="vc_row wpb_row vc_row-kentha"><div class="wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12"><div class="vc_column-inner"><div class="wpb_wrapper">
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<p><em>-Eu sou diferente de todos os homens que poderás encontrar.<br />
-Todos os homens são diferentes&#8230;<br />
-Mas eu sou diferente até naquilo que os outros são iguais.<br />
-Podias concretizar?<br />
-Tu, por exemplo. Amo-te, julgo sabê-lo. E assim, nunca te conseguirei deixar. Faltar-me-ão sempre as forças para dar o último passo.<br />
-Eu sei. É por isso que te acho um fraco.<br />
Ela sabia! Logo aquilo que mais me esforçava por ocultar. E era esse o motivo porque me achava um fraco. Detestei-me como nunca naquele preciso momento. Ela sabia medir as palavras, calmamente, deixando-as fermentar até atingir a máxima acidez. Eu, pelo contrário, face a tanta calma aparente, enervava-me. Afinal, queria-lhe dizer coisas que ela ainda não soubesse. O meu castelo de cartas desmoronava-se por completo. Ela tinha acertado em cheio na ferida, e as palavras entalavam-se-me agora no céu da boca. No amor, quando às sensações sucedem as palavras, é muito perigoso dar a conhecer a jogada antecipadamente, e eu sentia já que estava condenado.<br />
-Porquê que me achas um fraco?<br />
Ela estava extremamente calma, e facilmente respondeu à pergunta óbvia.<br />
-Porque sim.<br />
-Então e onde vês tu a força, ou a falta dela, nas pessoas? É pela maneira de andar, e pela maneira de dizer bom dia?<br />
-Não é por nada disso, e é por isso tudo ao mesmo tempo. Vê-se, simplesmente. Mas deixa lá que eu também sou fraca, até talvez mais do que tu. Por isso preciso de alguém que seja forte.<br />
Agora eu sabia. Tudo era devido ao facto de eu ser fraco. Afinal era esse o meu pecado. Não era o ser baixo, ou o ter os dentes amarelos, não, era algo de geral, próprio de mim: ser fraco.</em></p>
<p>Bórgia Ginz, <em>in O Anormal</em></p>
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		<title>Parede nua</title>
		<link>https://astrangerparadise.com/parede-nua</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bórgia Ginz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Apr 2021 17:22:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[O Anormal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Descanso a cabeça de encontro à parede nua. Vejo assim mais nitidamente o meu futuro impossível, o sonho destravado e inútil dos meus desejos antigos. Toda a miséria da minha existência inunda agora os poros entupidos da minha pele ressequida e vencida pelo tempo. Não mais do que uma pequena solidez nos punhos e na face, não mais do que um pedaço de esforço vão e sôfrego, vão e inútil, como se estas palavras tivessem significados diferentes. Não vejo a minha sombra no asfalto da rua. Porque será? Não fosse noite na minha alma e tentaria responder a esta pergunta.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="qt-vc-row-container"><div class="vc_row wpb_row vc_row-kentha"><div class="wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12"><div class="vc_column-inner"><div class="wpb_wrapper">
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<p>Descanso a cabeça de encontro à parede nua. Vejo assim mais nitidamente o meu futuro impossível, o sonho destravado e inútil dos meus desejos antigos. Toda a miséria da minha existência inunda agora os poros entupidos da minha pele ressequida e vencida pelo tempo. Não mais do que uma pequena solidez nos punhos e na face, não mais do que um pedaço de esforço vão e sôfrego, vão e inútil, como se estas palavras tivessem significados diferentes. Não vejo a minha sombra no asfalto da rua. Porque será? Não fosse noite na minha alma e tentaria responder a esta pergunta.<br />
Pergunto-me amiúde porque me sentirei assim. Não encontro resposta. Ela foge-me. Ela substitui-se à pequenez da minha visão. Porque os meus olhos vêm coisas que o mundo esconde, e assim iliba. Todo o mundo está de antemão ilibado. E a minha sorte será jogada com uns dados viciados que as mãos do meu amor lançou de encontro ao meu corpo dobrado e cansado. Sem a liberdade do sentir. Sem eu próprio poder soletrar uma palavra que seja em contrário. Nem sequer há a vontade de fazer isso. Estou resignado.<br />
O vento sopra sorrateiro por entre as pregas da minha camisa. Ela e o vento ensaiam uma pequena coreografia ondulante, e eu fico estático. Vejo as outras pessoas, sorridentes, a comentarem entre olhares expressivos: “Está tanto vento!” Mas este tanto vento não chega para varrer todas as misérias que nascem entre nós. Estamos impregnados de mau sentir.</p>
<p>Bórgia Ginz, <em>in O Anormal</em></p>
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		<title>O Conde</title>
		<link>https://astrangerparadise.com/o-conde</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bórgia Ginz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Apr 2021 16:57:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[O Anormal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p><em>O Conde era muito moreno. Adivinhavam-se na sua cor e traços certos vestígios de uma qualquer raça arábica, como muitas que se encontram pela França inteira. Tinha o peito repleto de pêlos, uns pêlos rijos e fortes, que faziam ressoar um certo timbre de sussurro quando raspavam os meus, mais suaves. Os braços dele eram cheios, todos empanturrados de sensualidade; pareciam amarras de bons portos, sempre prontos a nos recolher e confortar. Apresentava uma leve barriga proeminente, que supus ser o efeito de exagero na bebida. As pernas eram lindas. Com os músculos todos certos, sem exagero, suaves. </em></p>
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<p><em>O Conde era muito moreno. Adivinhavam-se na sua cor e traços certos vestígios de uma qualquer raça arábica, como muitas que se encontram pela França inteira. Tinha o peito repleto de pêlos, uns pêlos rijos e fortes, que faziam ressoar um certo timbre de sussurro quando raspavam os meus, mais suaves. Os braços dele eram cheios, todos empanturrados de sensualidade; pareciam amarras de bons portos, sempre prontos a nos recolher e confortar. Apresentava uma leve barriga proeminente, que supus ser o efeito de exagero na bebida. As pernas eram lindas. Com os músculos todos certos, sem exagero, suaves. As nádegas eram a coisa mais sensual que jamais conseguira encontrar. Recobertas de pequenos e finos cabelos doirados, surpreendia a aparição de uma pequena lua tatuada na nádega esquerda, talvez lembrança de uma amante antiga.</em><br />
<em>Aquilo que nos dava mais prazer eram as longas horas que passávamos abraçados, ternamente enleados no sofá da sala, enquanto esperávamos o nascer do dia. Eu subia até ao quarto da minha pensão, e vinha de lá carregado com um cobertor azul que nos iria cobrir mais tarde.</em><br />
<em>Lembro especialmente das suas mãos. Frenéticas! Agarrava a minha mão e apertava-a, e os seus dedos não paravam, num constante movimento de abrir e fechar. Nunca aquelas mãos estiveram paradas. Os seus dedos… E assim ficávamos nós horas e horas. Depois levantávamo-nos e dançávamos, como dois amantes, libertos de qualquer peso, com todo o corpo a desejar o final, o abismo dos sentidos, o mergulhar do corpo no corpo do outro.</em><br />
<em>E ele saltava para as minhas pernas e atiçava-as, fazia-as endiabrar no lusco-fusco da sala. Era como se todo o mundo se concentrasse no seu corpo, sempre à espera.</em><br />
<em>A sua expressão abria-se num sorriso todo cheio de fragilidade, todo a pedir protecção, ternura. Pegava então nele e levava-o para o quarto, onde lhe contava histórias que eu inventava para o adormecer. “Conta-me uma história” – pedia ele. E então eu falava. Ao ouvido, enquanto fumava um cigarro. Contava-lhe histórias de príncipes e de pássaros falantes, mas acho que ele nunca compreendeu que falava dele. A música era cor para os olhos das crianças, nós, enfim nós, quando tudo parecia alcançável, quando todo o vento do mundo se podia suster com os lábios em bico.</em><br />
<em>Da imagem menos nítida dos seus olhos eu ainda enfrento a paz, sublime em pecado, com toda a volúpia de todos os homens do mundo.</em><br />
<em>As vozes dos fantasmas! &#8211; lembro-me agora deles… Todos os nossos amantes antigos nos apareciam em sonhos, e fazíamos amor com todos eles; em ilusão, em bruma dispersa que embriagava os sentidos. Eu não sei se estava com uma pessoa, ou se mergulhava no meio do mar. Eu não consigo reconstituir as suas feições, os seus lábios, os seus olhos escuros, a sua barriga, mas lembro-me de todo o seu ser. Ele ainda me toca, quando menos espero, na escuridão nua do meu quarto. Eu acordo e percorro o seu peito com as minhas unhas sujas de ganza.</em><br />
<em>Foi com ele que fumei o meu primeiro joint de ganza, no interior de uma casa em construção. Levara-me para lá uns meses antes, aos saltos, anunciando-me o elixir do tempo magnífico, o embalo adorado do Deus do Amor. E amámo-nos muito a seguir. Deitados no chão frio e áspero, não conseguíamos vislumbrar uma réstia de luz que fosse, que nos fizesse retroceder, atrasar o passo e retornar para o semblante carregado.</em><br />
<em>Fomos puros. Cristalinos. Provocantes. E ninguém soube.</em></p>
<p>Bórgia Ginz, <em>in O Anormal</em></p>
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		<title>Juca Pimentel</title>
		<link>https://astrangerparadise.com/o-anormal-juca-pimentel</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bórgia Ginz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Apr 2021 16:55:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[O Anormal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Decidi acender um cigarro, quando entrou no café um indivíduo de baixa estatura e aspecto desleixado que se dirigiu apressadamente para o balcão e logo se pôs a gritar para o empregado que o fora atender, tornando-se totalmente impossível não o deixar de ouvir:<br />
-Eu sei que o senhor tem pouca consideração por mim! Não, não diga nada, pois eu vejo-o nos seus olhos! Estava eu ainda desinteressado de tudo isto a que chamam “ir a um café” e já me vem o senhor abeirar-se e perguntar o que quero. Eu não quero nada! Eu só quero estar aqui!</p>
<p>The post <a href="https://astrangerparadise.com/o-anormal-juca-pimentel">Juca Pimentel</a> first appeared on <a href="https://astrangerparadise.com">A Stranger Paradise</a>.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="qt-vc-row-container"><div class="vc_row wpb_row vc_row-kentha"><div class="wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12"><div class="vc_column-inner"><div class="wpb_wrapper">
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<p>Decidi acender um cigarro, quando entrou no café um indivíduo de baixa estatura e aspecto desleixado que se dirigiu apressadamente para o balcão e logo se pôs a gritar para o empregado que o fora atender, tornando-se totalmente impossível não o deixar de ouvir:<br />
-Eu sei que o senhor tem pouca consideração por mim! Não, não diga nada, pois eu vejo-o nos seus olhos! Estava eu ainda desinteressado de tudo isto a que chamam “ir a um café” e já me vem o senhor abeirar-se e perguntar o que quero. Eu não quero nada! Eu só quero estar aqui! E além disso não poderia querer alguma coisa porque não teria dinheiro para o pagar. Mas eu sabia! Eu estive lá fora, a ser empurrado por gente que não conheço, a ser pisado e cuspido, a tentar encontrar a coragem para fazer avançar uma das pernas em direcção à porta desta espelunca. Estive lá uma boa vintena de minutos1 E mesmo assim tive de reunir todas as minhas forças, mesmo aquelas que ignorava possuir, para, num impulso e com uma lâmina a dilacerar-me os pulsos entrar e encostar-me ao balcão como se fosse uma pessoa normal!</p>
<p>Eu olhei melhor e vi realmente uma navalha de imitação que ele segurava na mão direita e encostava ao pulso esquerdo. O homem agora já não falava e o jovem empregado empalidecera até á cor da perafina, não podendo articular qualquer palavra que fosse. De súbito, a expressão dura do desconhecido abriu-se num enorme sorriso e levantando os braços acrescentou:<br />
&#8211; Caro amigo, acalme-se! Estava só a brincar consigo! Eu sei que não devia fazer isto, mas é uma mania que não me sai. Eu só queria ver a sua reacção e de certa forma fazer-lhe um aviso: é que o inesperado pode acontecer e há muitos malucos por aí!<br />
O empregado, bastante atrapalhado, fez que sim com a cabeça.<br />
&#8211; Bem, já vi que percebeu, sim senhora, deixo-o. Já agora traga-me um brandy que o efeito do último já vai passando.<br />
Não dava para perceber se o homem se encontrava embriagado, á primeira vista tudo indicava que sim, mas a forma como lançou um olhar largo por toda a sala indicava a existência de um controle que seria impossível caso estivesse deveras bebido. Com as duas mãos, segurou no copo que lhe for a servido e pareceu-me dizer qualquer coisa, um murmúrio, como se falasse para o líquido escuro e alcoólico que parecia o centro de todas as suas atenções.<br />
Foi então que ele nos viu, e logo se aproximou da nossa mesa, cambaleante.<br />
&#8211; Ainda ontem estava eu a fazer malha com os meus pensamentos mais descabidos, quando me apercebi de que nada me fazia sentir o frio das outras pessoas. Quando entraram três meninas recatadas na palidez do meu estado, logo me percorreu uma enorme vontade de lhes tocar, de sentir a libido dos seus corpos imundos. Sou uma besta sexual? Não, apenas me apaixono facilmente. É como levantar a colher de sopa e erguê-la à altura dos lábios: após anos de treino já nem nos apercebemos que o fazemos.<br />
Falava lentamente, abanando a cabeça a cada sílaba pronunciada. Um pedaço viscoso de baba pendia-lhe do canto da boca húmida. Vinho… parecia vinho.<br />
De súbito levantou-se ruidosamente e pôs-se a cantarolar a 5ª Sinfonia de Beethoven, acompanhando a sua cantilena com um esbracejar violento, com tal barulho que logo as pessoas que estavam no café dirigiram o olhar para ele. S. também olhava para ele, e ria-se, baixinho, imóvel, com todos os seus dentes brancos a reflectirem-se copo de Porto que segurava na mão esquerda.<br />
&#8211; Cantem, cantem comigo! – incentivava o indivíduo.<br />
S. sorriu ainda mais, mas sem se mexer, continuava a fumar. Quanto a mim, acompanhei-a. Via-se que o homem fazia um esforço tremendo para se manter de pé, oscilando pesadamente de um pé para o outro. Com as mãos à altura do peito, cantava cada vez mais alto, o que o fazia engasgar-se aflitivamente. De súbito, olhou-nos de fronte, completamente ofuscado por qualquer coisa que ia dizer, e caiu pesadamente em cima da mesa, vomitando mesmo ali. Foi um problema trazê-lo dali para fora. Começou a discutir ferozmente com o dono do estabelecimento e logo depois caiu num imenso torpor alcoólico que o deixou inconsciente. Uma vez cá fora deitá-mo-lo no passeio e esperámos uns bons dez minutos antes que se recompusesse. Acordou e logo cuspiu para cima do meu braço.<br />
&#8211; Como te chamas? – perguntei.<br />
&#8211; Juca… Juca Pimentel – respondeu atordoado.<br />
&#8211; E o que é que fazes?<br />
&#8211; Sou poeta.<br />
E voltou a adormecer.</p>
<p>Bórgia Ginz, <em>in O Anormal</em></p>
</div>
</div>

		</div>
	</div>
</div></div></div></div></div><p>The post <a href="https://astrangerparadise.com/o-anormal-juca-pimentel">Juca Pimentel</a> first appeared on <a href="https://astrangerparadise.com">A Stranger Paradise</a>.</p>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>S</title>
		<link>https://astrangerparadise.com/s</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bórgia Ginz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 Jan 2012 03:21:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[O Anormal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>- Acreditas na beleza?  - Acredito na minha beleza, e na dos filhos que terei mais tarde.  - És muito narcisista. - Não! Sou apenas uma mulher deste século, alguém que deixou de acreditar em qualquer coisa que não ela própria. Aliás… como toda a gente que conheço. Eu só te digo as coisas desta maneira para te fazer ver as coisas como elas são hoje em dia. Se perguntasses a uma Antonieta ou a um Jeraldino qualquer, eles responderiam invariavelmente da mesma forma: eu, mim, minha… Se não fosse assim, as pessoas amar-se-iam todas, e isso seria insuportável, um verdadeiro suplício.</p>
<p>The post <a href="https://astrangerparadise.com/s">S</a> first appeared on <a href="https://astrangerparadise.com">A Stranger Paradise</a>.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="qt-vc-row-container"><div class="vc_row wpb_row vc_row-kentha"><div class="wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12"><div class="vc_column-inner"><div class="wpb_wrapper">
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<p>&#8211; Acreditas na beleza?<br />
&#8211; Acredito na minha beleza, e na dos filhos que terei mais tarde.<br />
&#8211; És muito narcisista.<br />
&#8211; Não! Sou apenas uma mulher deste século, alguém que deixou de acreditar em qualquer coisa que não ela própria. Aliás… como toda a gente que conheço. Eu só te digo as coisas desta maneira para te fazer ver as coisas como elas são hoje em dia. Se perguntasses a uma Antonieta ou a um Jeraldino qualquer, eles responderiam invariavelmente da mesma forma: eu, mim, minha… Se não fosse assim, as pessoas amar-se-iam todas, e isso seria insuportável, um verdadeiro suplício. Não, as pessoas preferem proteger-se atacando os outros, a estender a mão e beijar a face de alguém que se calhar nem se conhece de lado algum. E em relação às pessoas que não se conhece o caso até se complica: é que ninguém sabe se no bolso têm uma flor ou uma faca. Bem, é difícil terem uma flor… Não houve já tantas guerras? Tudo a mesma coisa. Todos a pensarem que todos tinham uma faca no bolso! Nunca ninguém soube o que passou pela cabeça desses mortos todos, desses tipos de armas na mão que viram a porta fechar-se sob o impulso de uma bala. Mas decerto que se lhes dessem mais dez minutos de vida, os gastariam a chorar, como crianças cheias de dor, por nem elas nem os que mandam terem sabido erguer a flor bem alto e a tempo. Desenterrem-nos e ainda lhes verão na face amortalhada a expressão de surpresa por se terem apercebido que o que existe na vida é pura e simplesmente a probabilidade de morrer ao virar da esquina. Sem glória nem despedida, quanto mais dignidade. Depois há os outros que vivem como se ainda estivessem no interior das barrigas das mães, existindo a custa do que o sistema organizado e secular a que chamam civilização lhes dá. Enquanto jovens ficam-se por casa, e depois de concluídos os estudos empregam-se e entram no enorme rebanho bem sucedido dos que produzem algo: mais um computador, ou uma barragem, ou dois quilos de arroz, conforme… E sentem-se especiais, sentem-se importantes, olham para o vizinho, menos afortunado, e pensam: « Eu fiz mais e melhor do que ele, tenho um curso superior e distinção, ganho agora muito dinheiro, fiz o que devia, posso-me orgulhar de ter cumprido o meu dever. » E pensam tudo isto enquanto fazem a barba, de manhã, e se preparam para tirar da garagem o carro que os levará ao emprego. E pensar que viverão uma vida sem parar para perguntar: « Porquê? » Uma pessoa, antes de ser um filho, antes de ser um estudante, antes de ser um empregado, é um Homem. Um ser humano que não se poderá contentar em fazer parte de um acordo geral com a mecanização humana, que não poderá perder o rasto da sua individualidade. Essas pessoas pensam que produzem e contribuem para o engrandecimento da humanidade, mas não fazem nada que alguém nas mesmas condições não faça. Daqui a poucos anos dar-se-á inevitavelmente a sua queda na indiferença, no abismo do dispensável. Então, serão substituídas por máquinas, mais económicas e eficientes, e aí, onde residirá a importância e a glória dessas pessoas: em Nada! Porque de facto nunca criaram nada. Apenas deram o corpo enquanto foi necessário. Farão menos que uma planta que renova o ar. A pouco aspiram essas pessoas! Dou mais vivas a um camponês que nunca viu o mar e se alegra por fazer brotar da terra uma semente do que a um engenheiro que se entusiasma por ter obtido uma promoção. É por isto tudo que há tanta gente que chega ao fim de uma longa vida e, olhando para trás, apenas encontram o vazio. Se lhes perguntares o que de mais importante lhes aconteceu ou fez, terão uma única e breve resposta: « Os meus filhos! » Porque poderá não haver nada mais belo do que ter um filho, e porque sentirão que foi a coisa que deram ao mundo e é criação inteiramente sua, única, verdadeiramente bela. E eles sentem isso como sendo o único elo que ainda os liga à tal humanidade que tanto serviram durante toda a vida. A vida á como aquela pequena moeda que repousa solitária no fundo do bolso das nossas calças: temos que escolher onde vamos gastá-la. E tenho a certeza que muito mais difícil do que ser mais um a gozar a vida, é sem dúvida tomar o rumo que nós achamos mais correcto e assim arcar com as consequências… Mas dói imenso não ter ninguém com quem afagar um rato na escuridão do nosso quarto.<br />
E calou-se. Vi então que os seus olhos se tinham humedecido de súbito, brilhando ténuamente no meio da penumbra que afogava o canto onde nos encontrávamos. Havia nela, na maneira como se inclinava por sobre a mesa, no modo como erguia o cigarro à altura dos lábios, qualquer coisa que me deixava perplexo e fascinado. Tinha á minha frente alguém que vivia em sonho o que as outras pessoas esqueciam ao acordar de manhã, na placidez dos lençóis enrugados, alguém que se fustigava por ter nascido sem escolha própria. Estava encerrada no seu próprio corpo, e gritava pelo mar e céu: gritos mudos, amordaçados pela estúpida indiferença de toda uma vasta plateia que mais não fazia do que rir sem saber bem porquê. S. tinha chegado àquele ponto em que o limiar da incerteza se transforma em cruel desilusão. A realidade queima mais do que uma pira funerária e ela tinha percorrido todos os cemitérios do mundo. Nunca me sentira tão perto de uma pessoa como naquele momento, pela primeira vez olhava uma mulher e via-a realmente, não estando defronte de um pedaço de vidro translúcido com alguma capacidade de reflectir imagens, não, S. existia efectivamente e assim deslocava qualquer coisa no espaço que era meu também.</p>
<p>Bórgia Ginz, <em>in O Anormal</em></p>
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</div></div></div></div></div><p>The post <a href="https://astrangerparadise.com/s">S</a> first appeared on <a href="https://astrangerparadise.com">A Stranger Paradise</a>.</p>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A Força</title>
		<link>https://astrangerparadise.com/a-forca</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bórgia Ginz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Apr 2021 17:23:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[O Anormal]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://astrangerparadise.com/?p=3682</guid>

					<description><![CDATA[<p><em>Em quê que se revela a força de uma pessoa? Nas suas acções, talvez. Na sua maneira de estar, talvez. Ou então em pequenos pormenores de ocasião, tal como a maneira como saúda alguém que já não vê há muito tempo, ou como ergue a taça de vinho à altura dos lábios para uma golada rápida. Ou então, na maneira como ama e facilmente esquece...</em></p>
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<p><em>Em quê que se revela a força de uma pessoa? Nas suas acções, talvez. Na sua maneira de estar, talvez. Ou então em pequenos pormenores de ocasião, tal como a maneira como saúda alguém que já não vê há muito tempo, ou como ergue a taça de vinho à altura dos lábios para uma golada rápida. Ou então, na maneira como ama e facilmente esquece&#8230;</em><br />
<em>A força, entre homens, trata-se de uma coisa bem definida, medida por acções, por posições de firmeza em relação a certos assuntos. Um homem é forte quando se manifesta coerente, e aqui, até os músculos se revelam pouca coisa. É as ideias, a coerência das ideias, a dignidade dessas ideias, a tenacidade positiva, que torna o homem forte entre os homens. Já se vai abandonando a destreza dos músculos, a ligeireza do corpo, em favorecimento do ideal, da elevação moral. Com as mulheres, o caso complica-se. Que definição de força resulta face aos olhos das mulheres?</em><br />
<em>A mulher confunde muitas vezes fraqueza com respeito. É algo muito difícil de analisar e mesmo imperceptível a olho nu. E só quem alguma vez se confrontou com uma mulher em relação ao assunto poderá ter uma ideia de como assim é.</em><br />
<em>É um facto que a mulher gosta de ser cortejada pelo homem. Nem se trata já de algo social; é fisiológico. É hormonal. Após tantos anos em que a mulher esteve no tal pedestal ao qual os homens chegavam através da corte, a informação foi de tal modo apreendida que é como se um novo órgão tivesse nascido no seu corpo: o receptáculo da corte. Quando falo em corte, refiro-me obviamente aos seus aspectos actuais. O interesse, ou melhor, a demonstração de interesse por parte do homem.</em></p>
<p>Bórgia Ginz, <em>in O Anormal</em></p>
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		<title>H</title>
		<link>https://astrangerparadise.com/h</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bórgia Ginz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Apr 2021 20:23:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[O Anormal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>H. pousou a caneta e olhou pela janela. A noite caíra decerto há muito, a penumbra do quarto deixava-o enleado pela ténue luz do candeeiro. O quarto era grande. Havia ao longo de toda uma parede uma série de prateleiras cheias de pó, onde os livros se amontoavam de uma forma pouco arrumada, livros velhos a maior parte, com as lombadas gastas e de aspecto barato.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="qt-vc-row-container"><div class="vc_row wpb_row vc_row-kentha"><div class="wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12"><div class="vc_column-inner"><div class="wpb_wrapper">
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<p>H. pousou a caneta e olhou pela janela. A noite caíra decerto há muito, a penumbra do quarto deixava-o enleado pela ténue luz do candeeiro. O quarto era grande. Havia ao longo de toda uma parede uma série de prateleiras cheias de pó, onde os livros se amontoavam de uma forma pouco arrumada, livros velhos a maior parte, com as lombadas gastas e de aspecto barato. A cómoda de madeira, colocada no limite da esquina, servia de guarda-roupa, com umas calças, camisas e meias espalhadas pelo seu tampo brilhante de verniz. Essa roupa, tapava quase metade do espelho alto e direito pendurado na parede. A cama ficava encostada à parede mais pequena do quarto, exactamente no meio, uma cama de solteiro de ferro pintado de verde. Uma cadeira ao fundo da cama. Havia no ar um odor algo pesado de tabaco, misturado levemente com qualquer coisa que poderia vir das meias encima da cómoda. A escrivaninha era mais uma espécie de mesa de escritório, toda feita de ferro preto, com um tampo de madeira forrada a contraplacado, onde um monte de folhas se espalhava a toda a largura, em volta de um cinzeiro repleto de cigarros fumados até ao filtro. Numa dessas folhas, aquela que parecia ser a última, podia-se ler:</p>
<p><em>“O silêncio é forte. Inunda as paredes de um torpor que até mete medo. O silêncio é feito de crosta de molusco, é frágil como a unha da mulher mais bela, e reina como ela até ao final dos tempos.”</em></p>
<p>H. tirou os olhos da janela. Levantou-se, e preparou-se para deitar.</p>
<p>Isto de o silêncio ser de crosta de molusco tem muito que se lhe diga. E talvez H. não tenha percebido ele próprio o que quis dizer com isso. As palavras tinham-se-lhe escapado da mão e estavam agora ali suspensas nas folhas de papel branco. Na altura em que as escrevera, a sua expressão não acolhia o sofrimento nem a voluptuosidade; era antes um confronto entre a calma e a ausência, com ambas a conspirar para atingir extremos do outro lado da barricada das sensações, mas um embate tão suave que logo se estacionavam encima da própria barricada, na neutralidade. Teria sido um impulso que o tomou na inércia branca do pensamento. E H. muitas vezes como que se irrealizava, numa modulação feita de signos existenciais diferentes, e era dessa magnitude que advinham a maior parte dos pensamentos e percepções lógicas. Quer dizer, os actos não vinham de si, mas do extremo pontiagudo em que ele se criava. A própria relação geométrica do espaço era já por si uma realização da realidade tumultuosa por ele manifestada, que se opunha ao processo corrente das sensações que qualquer um presencia.<br />
Até ao momento eu não tinha observado ainda a concentração desses dois corpos metafísicos numa só entidade, pelo que a percepção das coisas em que me baseava para avaliar H. era do primeiro nível, ao nível da expressão corrente, que é sempre a primeira que nos é feita perceber, e por muitas vezes a última.<br />
Eu, de olhos fixos nele enquanto escrevia acerca do reinado feminino do silêncio, não realizei eficazmente a dissolução do seu processo no ponto máximo da sua entidade. E penso que H. também não.</p>
<p>H. nasceu talvez do Romance. Foi lá que ele iniciou o processo de transformação do espaço em algo talvez mais lento ou discreto, talvez pelo estabelecimento da possibilidade de existência de buracos vazios na sua própria estrutura temporal, e da exploração do preenchimento desses mesmos blocos vazios e pesados que lhe navegavam pela existência. Se eu o percebesse melhor na altura, poderia muito bem estar melhor documentado para realizar aquele seu tempo aqui, mas as fundamentações dos seus actos aparecem-me bem definidas para poder afirmar algumas possibilidades. E se H. nasceu do Romance, é talvez um facto que fosse o seu maior defunto. Penetrara num velório mais ou menos consentido, que lhe fazia crescer asas no lugar onde já não havia carne, onde apenas os escombros orgânicos da metafísica evoluíam na lógica imortal do acaso que no seu andar se tornara Lei.<br />
Esse acaso levara-o a escrever. Pretendia colocar no papel a possibilidade do forte existir na suavidade, segundo me disse um dia durante um passeio oblíquo, escrever talvez um romance onde tudo fosse determinado pelo tempo lógico das sensações, que resolvesse algumas das questões que controlam o ser humano, e contribuir assim para determinar um qualquer bem estar futuro para a Humanidade.<br />
Como suporte para esse devaneio consciente tinha pensado a estória de um homem vulgar, e a sua inserção no Mundo que lhe parecera distante durante a maior parte da sua vida, passada entre livros e amigos de infância, um modo de “estar” e “ser” diferente, e a forma como acabaria por enlouquecer pela pessoas que conhecera. Um homem que reflectia a sua angústia em folhas de papel que escrevia esporadicamente, que poderiam mais tarde vir a tornar-se um livro, sua ambição antiga. Que não se deu conta de um estado psicótico que o assaltou até tomar cada vez mais parte da sua própria essência. E o surgimento de um crime.</p>
<p>Lembro-me que nesse tempo eu, ele, todos nós, navegávamos num mar quente de normalidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Bórgia Ginz, <em>in O Anormal</em></p>
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