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O Anormal

H

Bórgia Ginz

H. pousou a caneta e olhou pela janela. A noite caíra decerto há muito, a penumbra do quarto deixava-o enleado pela ténue luz do candeeiro. O quarto era grande. Havia ao longo de toda uma parede uma série de prateleiras cheias de pó, onde os livros se amontoavam de uma forma pouco arrumada, livros velhos a maior parte, com as lombadas gastas e de aspecto barato. A cómoda de madeira, colocada no limite da esquina, servia de guarda-roupa, com umas calças, camisas e meias espalhadas pelo seu tampo brilhante de verniz. Essa roupa, tapava quase metade do espelho alto e direito pendurado na parede. A cama ficava encostada à parede mais pequena do quarto, exactamente no meio, uma cama de solteiro de ferro pintado de verde. Uma cadeira ao fundo da cama. Havia no ar um odor algo pesado de tabaco, misturado levemente com qualquer coisa que poderia vir das meias encima da cómoda. A escrivaninha era mais uma espécie de mesa de escritório, toda feita de ferro preto, com um tampo de madeira forrada a contraplacado, onde um monte de folhas se espalhava a toda a largura, em volta de um cinzeiro repleto de cigarros fumados até ao filtro. Numa dessas folhas, aquela que parecia ser a última, podia-se ler:

“O silêncio é forte. Inunda as paredes de um torpor que até mete medo. O silêncio é feito de crosta de molusco, é frágil como a unha da mulher mais bela, e reina como ela até ao final dos tempos.”

H. tirou os olhos da janela. Levantou-se, e preparou-se para deitar.

Isto de o silêncio ser de crosta de molusco tem muito que se lhe diga. E talvez H. não tenha percebido ele próprio o que quis dizer com isso. As palavras tinham-se-lhe escapado da mão e estavam agora ali suspensas nas folhas de papel branco. Na altura em que as escrevera, a sua expressão não acolhia o sofrimento nem a voluptuosidade; era antes um confronto entre a calma e a ausência, com ambas a conspirar para atingir extremos do outro lado da barricada das sensações, mas um embate tão suave que logo se estacionavam encima da própria barricada, na neutralidade. Teria sido um impulso que o tomou na inércia branca do pensamento. E H. muitas vezes como que se irrealizava, numa modulação feita de signos existenciais diferentes, e era dessa magnitude que advinham a maior parte dos pensamentos e percepções lógicas. Quer dizer, os actos não vinham de si, mas do extremo pontiagudo em que ele se criava. A própria relação geométrica do espaço era já por si uma realização da realidade tumultuosa por ele manifestada, que se opunha ao processo corrente das sensações que qualquer um presencia.
Até ao momento eu não tinha observado ainda a concentração desses dois corpos metafísicos numa só entidade, pelo que a percepção das coisas em que me baseava para avaliar H. era do primeiro nível, ao nível da expressão corrente, que é sempre a primeira que nos é feita perceber, e por muitas vezes a última.
Eu, de olhos fixos nele enquanto escrevia acerca do reinado feminino do silêncio, não realizei eficazmente a dissolução do seu processo no ponto máximo da sua entidade. E penso que H. também não.

H. nasceu talvez do Romance. Foi lá que ele iniciou o processo de transformação do espaço em algo talvez mais lento ou discreto, talvez pelo estabelecimento da possibilidade de existência de buracos vazios na sua própria estrutura temporal, e da exploração do preenchimento desses mesmos blocos vazios e pesados que lhe navegavam pela existência. Se eu o percebesse melhor na altura, poderia muito bem estar melhor documentado para realizar aquele seu tempo aqui, mas as fundamentações dos seus actos aparecem-me bem definidas para poder afirmar algumas possibilidades. E se H. nasceu do Romance, é talvez um facto que fosse o seu maior defunto. Penetrara num velório mais ou menos consentido, que lhe fazia crescer asas no lugar onde já não havia carne, onde apenas os escombros orgânicos da metafísica evoluíam na lógica imortal do acaso que no seu andar se tornara Lei.
Esse acaso levara-o a escrever. Pretendia colocar no papel a possibilidade do forte existir na suavidade, segundo me disse um dia durante um passeio oblíquo, escrever talvez um romance onde tudo fosse determinado pelo tempo lógico das sensações, que resolvesse algumas das questões que controlam o ser humano, e contribuir assim para determinar um qualquer bem estar futuro para a Humanidade.
Como suporte para esse devaneio consciente tinha pensado a estória de um homem vulgar, e a sua inserção no Mundo que lhe parecera distante durante a maior parte da sua vida, passada entre livros e amigos de infância, um modo de “estar” e “ser” diferente, e a forma como acabaria por enlouquecer pela pessoas que conhecera. Um homem que reflectia a sua angústia em folhas de papel que escrevia esporadicamente, que poderiam mais tarde vir a tornar-se um livro, sua ambição antiga. Que não se deu conta de um estado psicótico que o assaltou até tomar cada vez mais parte da sua própria essência. E o surgimento de um crime.

Lembro-me que nesse tempo eu, ele, todos nós, navegávamos num mar quente de normalidade.

 

Bórgia Ginz, in O Anormal





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