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O Anormal

O Conde

Bórgia Ginz

O Conde era muito moreno. Adivinhavam-se na sua cor e traços certos vestígios de uma qualquer raça arábica, como muitas que se encontram pela França inteira. Tinha o peito repleto de pêlos, uns pêlos rijos e fortes, que faziam ressoar um certo timbre de sussurro quando raspavam os meus, mais suaves. Os braços dele eram cheios, todos empanturrados de sensualidade; pareciam amarras de bons portos, sempre prontos a nos recolher e confortar. Apresentava uma leve barriga proeminente, que supus ser o efeito de exagero na bebida. As pernas eram lindas. Com os músculos todos certos, sem exagero, suaves. As nádegas eram a coisa mais sensual que jamais conseguira encontrar. Recobertas de pequenos e finos cabelos doirados, surpreendia a aparição de uma pequena lua tatuada na nádega esquerda, talvez lembrança de uma amante antiga.
Aquilo que nos dava mais prazer eram as longas horas que passávamos abraçados, ternamente enleados no sofá da sala, enquanto esperávamos o nascer do dia. Eu subia até ao quarto da minha pensão, e vinha de lá carregado com um cobertor azul que nos iria cobrir mais tarde.
Lembro especialmente das suas mãos. Frenéticas! Agarrava a minha mão e apertava-a, e os seus dedos não paravam, num constante movimento de abrir e fechar. Nunca aquelas mãos estiveram paradas. Os seus dedos… E assim ficávamos nós horas e horas. Depois levantávamo-nos e dançávamos, como dois amantes, libertos de qualquer peso, com todo o corpo a desejar o final, o abismo dos sentidos, o mergulhar do corpo no corpo do outro.
E ele saltava para as minhas pernas e atiçava-as, fazia-as endiabrar no lusco-fusco da sala. Era como se todo o mundo se concentrasse no seu corpo, sempre à espera.
A sua expressão abria-se num sorriso todo cheio de fragilidade, todo a pedir protecção, ternura. Pegava então nele e levava-o para o quarto, onde lhe contava histórias que eu inventava para o adormecer. “Conta-me uma história” – pedia ele. E então eu falava. Ao ouvido, enquanto fumava um cigarro. Contava-lhe histórias de príncipes e de pássaros falantes, mas acho que ele nunca compreendeu que falava dele. A música era cor para os olhos das crianças, nós, enfim nós, quando tudo parecia alcançável, quando todo o vento do mundo se podia suster com os lábios em bico.
Da imagem menos nítida dos seus olhos eu ainda enfrento a paz, sublime em pecado, com toda a volúpia de todos os homens do mundo.
As vozes dos fantasmas! – lembro-me agora deles… Todos os nossos amantes antigos nos apareciam em sonhos, e fazíamos amor com todos eles; em ilusão, em bruma dispersa que embriagava os sentidos. Eu não sei se estava com uma pessoa, ou se mergulhava no meio do mar. Eu não consigo reconstituir as suas feições, os seus lábios, os seus olhos escuros, a sua barriga, mas lembro-me de todo o seu ser. Ele ainda me toca, quando menos espero, na escuridão nua do meu quarto. Eu acordo e percorro o seu peito com as minhas unhas sujas de ganza.
Foi com ele que fumei o meu primeiro joint de ganza, no interior de uma casa em construção. Levara-me para lá uns meses antes, aos saltos, anunciando-me o elixir do tempo magnífico, o embalo adorado do Deus do Amor. E amámo-nos muito a seguir. Deitados no chão frio e áspero, não conseguíamos vislumbrar uma réstia de luz que fosse, que nos fizesse retroceder, atrasar o passo e retornar para o semblante carregado.
Fomos puros. Cristalinos. Provocantes. E ninguém soube.

Bórgia Ginz, in O Anormal





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