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MALDITA LITERATURA, por Zombie

Zombie

 

 

 

Sentado estava num café esperando que as horas passassem rapidamente, objectivo que quanto mais nele pensava mais fustrantemente verificava ser impossível alcançar; conversava com alguns conhecidos acerca da meteorologia e de quais seriam as previsões para os próximos dias… enfim, banalidades!

De repente algo se alterou, uma luz ao meu cérebro aportou, alguém no café entrou, trajando um simples cartaz onde se anunciava a evocação da vida e obra de um escritor-poeta já desaparecido.

“E porque não?” Pensei. Era tão grande a melancolia da indiferença para com os que me rodeavam que quase personifiquei as folhas secas da dormideira vermelha. “É isso, vou conhecer algo desse artista.”

A sua vida foi exposta, lidos foram alguns excertos da sua obra.

Como pessoa tinha dentro de si dois egos. Um, real que o levava a pensamentos melancólicos e destrutivos, vivendo sempre torturado pela alma, mendigando pelas ruas da amargura, pensando e lendo muito, procurando algo de supremo (a Beleza, a Perfeição, a Contemplação), algo que o fizesse alcançar o seu ego ideal. Mas… era incoerente e a todo o momento se contradizia (talvez?). Andava da ré para a proa como um marinheiro desprotegido numa noite de temporal. às vezes, possuindo o Absoluto sentia não ser aquele o seu lugar. Então, voltava a cair na desgraça, na sucessão de sentimentos e sensações confusas, de onde só retirava algum prazer se entretido a passá-los ao papel.

Encerrada a cerimónia, saí e vagueei. Escusado será dizer, todas estas revelações me impressionaram (sim, é verdade), marcaram-me muito. O que mais me espantou foi a semelhança, ainda que ligeira, entre aquela vida e a minha.

Deixei-me então cair numa intensa modorra. Sem dar por ela, tinhame instalado na tasca mais reles que por aqueles sítios havia. Instintivamente, puxei de um cigarro e um bagaço ia já a caminho do meu fígado. O quanto bebi não sei, apenas recordo a imensidão de corpos dispersos sobre o balcão, o empregado implorando. “Ó chefe! Não beba mais! Por favor! Era suposto eu estar de folga! Ande lá, ande lá! Quanto mais entorna, mais eu trabalho!!” Obviamente, um empregado sem espírito comercial.

Se bebi para esquecer tudo, todas aquelas similaridades, não o posso afirmar. Na realidade, comecei a imaginar ser o hospedeiro de duas personalidades – eu… e o tal poeta.

Com o passar do tempo a sua forma tornou-se mais nítida, assumiuse como sendo meu opositor psíquico. Devido à embriaguez descuidouse, abrindo-se uma janela no meu cérebro que me permitiu imiscuir nos seus pensamentos, no seu modo de estar e de sentir. Verifiquei abstracção, mesmo introspecção. Reparei na abundância de olhares virtuais quantificando o espaço em multivariadas formas ou símbolos – creio ser possível exprimir o seu pensamento em pauta. Ouvi pressentimentos indefinidos, meditava “As pessoas mudam mas o contexto onde estão inseridos é imutável”. Sentia-se farto, inadaptado e desinteressado, bem como desintegrado. Criara-se uma sensaboria que urgia combater não sabendo como, não conhecia a mais correcta opção. Pensava eu “sendo ele um egocentrista haverá apenas duas possíveis soluções: ou continuava fiel a si próprio desligando-se do mundo em redor e viveria sem competição procurando o gozo pessoal absoluto, ou então desapareceria simplesmente desta encarnação.” No fundo, creio ser ele um sórdido romântico, um idealista aspirando a algo e desejando por isso não se concretizar.

Sentia-me exausto, os olhos ardiam-me. Adorava esta sensação. Fazia-me sentir abandonado a um local de onde não conseguiria sai, não por impedimento mental mas sim por uma espécie de mazela física. No entanto estava a gostar de ali estar.

À minha volta vegetavam bêbados como eu. Comunicava com eles de um modo muito pessoal, aveludando invariavelmente processos, encobrindo a voz. (Seria medo? Talvez.) Alguém se tinha incomodado, porquê não sei, sentia-me impelido a pedir desculpas…, mas eis que o escritor se impõe: “Não!! Tu tens razão, que não te fiquem remorsos! Vamos, vamos embora deste antro!!” Espantado, assim fui, cambaleando e adormecendo mal chagado a casa.

Na ressaca do dia seguinte acordei recordando tudo isto. Talvez tivesse sido um sonho. Lembrei-me dos versos do poeta: “Eu não sou eu nem sou o outro,/ Sou qualquer coisa de intermédio:/ pilar da ponte de tédio/ que vai de mim para o outro.”* Lembrei-me das podres mentes abjectas que me rodeavam e furioso exclamei: “Maldita literatura!”

 

 

*Versos do poeta Mário de Sá-Carneiro.

 

§§§
 

 





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